O que muita gente não sabe é que “riqueza” de vida, seja ela em qualquer nível ou forma de existência, é bem diferente de “diversidade” e de “biodiversidade”. Esses conceitos ainda não são bem entendidos pelas pessoas que não atuam nas áreas das ciências da natureza e por isso se tornam confusos e normalmente são aplicados de maneira errônea. Mas estes esclarecimentos são para um outro momento, e por enquanto, vamos tratar “riqueza” aqui neste contexto como o número de espécies de animais que vivem em determinados ecossistemas e comunidades biológicas.

Os campos do sul do Brasil, incluindo os que se inserem no bioma Pampa, são formados por ecossistemas naturais com uma alta riqueza de espécies animais e que oferecem benefícios ambientais de extrema relevância e formam a fonte forrageira principal para criação extensiva de bovinos, ovinos e equinos. Os campos do bioma Pampa são interligados com outras extensões de pastagens naturais que se estendem sobre o Uruguai e a Argentina. Estes ambientes garantem serviços ambientais importantes como a conservação de recursos hídricos, a disponibilidade de polinizadores e o provimento de recursos genéticos. Por outro lado, abrigam alta biodiversidade e oferecem beleza cênica com potencial turístico importante.

Mesmo assim, a conservação dos campos no bioma Pampa tem sido ameaçada pela conversão em culturas anuais, pela prática da silvicultura e pela degradação resultante da invasão de espécies exóticas. Nos últimos trinta anos, cerca da metade da superfície coberta originalmente com campos no estado do Rio Grande do Sul foi transformada em outros tipos de cobertura vegetal. E esse processo ocorreu sem que uma orientação técnica tivesse estabelecido limites aos órgãos regulamentadores. No momento existe uma precária legislação ambiental que normatiza as ações nesses ambientes e muitas políticas públicas têm estimulado a conversão dos campos que infelizmente são poucos representados nos sistemas de áreas protegidas.
Os campos no estado do Rio Grande do Sul fazem parte do habitat principal da fauna, onde algumas das espécies mais emblemáticas da fauna gaúcha são animais considerados essencialmente campestres. Entre estes estão a ema (Rhea americana), a perdiz (Nothura maculosa), o quero-quero (Vanellus chilensis), a caturrita (Myiopsitta monachus), o joão-de-barro (Furnarius rufus), o zorrilho (Conepatus chinga) e o graxaim-do-campo ou “sorro” (Lycalopex gymnocercus). Quanto aos mamíferos, 25 das cerca de 96 espécies não-voadoras do estado do Rio Grande do Sul habitam os campos. Já entre as aves, 120 das 578 espécies nativas continentais são adaptadas a vida nos campos, representando 21% do total de espécies.


Até o momento, não existem estimativas precisas para os demais grupos de animais vertebrados, mas alguns estudos apontam consideráveis números de espécies para os campos. No ano de 2007, Gracia et al. lançaram uma lista de 50 espécies de anfíbios para uma ecorregião que abrange a porção brasileira do bioma Pampa, a porção uruguaia e parte da província argentina de Entre Rios. Nestas regiões são comuns os sapinhos do gênero Melanophryniscus que vivem em alagados temporários nos ambientes de campo aberto. Esse gênero apresenta alta taxa de endemismo, possui cerca 24 espécies conhecidas pela ciência e nas formações abertas da zona subtropical/temperada da América do Sul ocorrem 16 espécies.
Um estudo realizado por Bérnils et al. (2007) enfatizaram uma grande riqueza específica de répteis no Pampa, quando comparado com as demais regiões campestres da América do Sul meridional. Foram relacionadas 97 espécies de répteis predominantemente heliófilas e campestres. Descobriu-se também neste estudo que várias espécies da herpetofauna do bioma Pampa são compartilhadas com os campos do sul do Brasil. Entre estas espécies de répteis estão os lagartos Ophiodes aff. striatus e Stenocercus azureus e as serpentes Lystrophis histricus, Liophis flavifrenatus, Liophis jaegeri, Helicops infrataeniatus, Pseudablabes agassizi e Bothrops pubescens.

Os peixes anuais do gênero Austrolebias (Rivulidae) possuem cerca de 40 espécies endêmicas da América do Sul, com maior concentração no sul do Brasil e constituem um componente único da fauna do Pampa. Esses peixes habitam unicamente charcos temporários rasos de várzeas e planícies inundáveis inseridas em zonas campestres ou costeiras. Este gênero de peixes é encontrado somente em áreas adjacentes do Uruguai e da Argentina, além do Chaco brasileiro. São chamados de peixes anuais por serem encontrados em estágio adulto durante um período relativamente curto do ano. Sobrevivem à época de vazante, quando a água seca, sob a forma de ovos que ficam enterrados no lodo. Atualmente são conhecidas 18 espécies de Austrolebias na metade sul do Rio Grande do Sul, e deste total, 7 vivem em paisagens onde os campos são predominantes.

Quando falamos em invertebrados terrestres dos campos o conhecimento apresenta-se precário e podendo estar abaixo do “ruim” segundo alguns especialistas. Desta forma, pouco pode ser comentado sobra a riqueza, composição de espécies e estruturas das comunidades dos variados grupos de invertebrados campestres que vivem nos campos. Os lepidópteros diurnos (borboletas e mariposas) são um dos únicos grupos de invertebrados terrestres considerados bem amostrados nos campos do sul do Brasil. Outro grupo é o das abelhas nativas das famílias Andrenidae e Colletidae que tem um pequeno porte e vivem de modo solitário, mantendo uma dependência mútua com algumas espécies de plantas que ocorrem no bioma Pampa, sugerindo exemplos de coevolução.
Neste artigo foram traçados conhecimentos de poucos grupos animais, e talvez, os que são mais evidentes quanto ao seu modo de vida. Assim são avistados com mais facilidade, o que facilita o registro e monitoramento de seus hábitos. Como vimos, falta muito conhecimento sobre os animais invertebrados (insetos, aranhas, diplópodes e outros) nos campos do sul do Brasil, principalmente no bioma Pampa. São esses animais, invisíveis geralmente ao olho humano, que oferecem os serviços ambientais essenciais para a manutenção destes ecossistemas campestres. Por outro lado, a biodiversidade e as formas de produção sustentável praticadas sobre os campos do sul do Brasil ainda são pouco conhecidas pelo conjunto da sociedade. Com um manejo adequado o uso destes ambientes pode se tornar muito produtivo juntamente com a manutenção da integridade e complexidade dos ecossistemas campestres e demais serviços ambientais.












