
Os diversos ambientes que existem na Terra são habitados por uma variedade de vida vegetal, animal e outros organismos de porte microscópico que não conseguimos detectar com um simples olhar. Os biomas e suas coberturas vegetais características oferecem as condições químicas e físicas para que as formas constituídas de vida se instalem, criem resiliência e se multipliquem. Entre estas formas estão as aranhas, animais invertebrados que fazem parte do grupo dos “artrópodes” e que são muito comuns em nosso cotidiano. As aranhas que habitam o bioma Pampa possuem as condições morfológicas e fisiológicas adequadas para resistirem as adversidades que se opõem a permanência destes organismos em ambientes com oscilações térmicas extremas.

Ao superarem essas pressões evolutivas as aranhas tornaram-se “predadoras” de topo na vegetação rasteira, na serrapilheira e em zonas de transição campo-floresta ao sul do Brasil, da Argentina e do Uruguai. Controlam principalmente as populações de insetos, artrópodes em geral e vertebrados de pequeno porte, desempenhando um papel fundamental para o equilíbrio das teias alimentares e a manutenção do fluxo de matéria e energia nos ecossistemas campestres. Seus hábitos comportamentais estão relacionados diretamente à superfície do solo, às gramíneas e à vegetação herbácea, onde ocupam diferentes nichos e utilizam estratégias sofisticadas de caça, como a captura ativa de presas e a construção de teias. De um ponto de vista ecológico, esta é uma importante função nos campos onde a diversidade de artrópodes e invertebrados tem uma relação direta com a estrutura e a heterogeneidade da vegetação.




Por outro lado, as paisagens cobertas por gramíneas e herbáceas sugerem uma homogeneidade biológica. Mas descobriu-se em estudos recentes e preliminares que a fauna de aranhas que vive no solo do bioma Pampa é rica, diversa e adequada a estes ecossistemas. Elas compõem as comunidades animais que vivem rente ao solo juntamente com outros artrópodes, como os percevejos, cigarrinhas (Hemipteras), moscas, mosquitos (Dipteras), besouros (Coleoptaras) e gafanhotos e grilos (Orthopteras). E neste contexto, as aranhas também são fonte de alimento para outros grupos de animais campestres, como as aves, anfíbios, répteis, pequenos mamíferos e outros artrópodes. A fauna araneológica é basicamente um elo essencial nas teias dos ecossistemas campestre, pois atuam diretamente no controle biológico, o que diminui a proliferação de insetos fitófagos sem a intervenção química (agrotóxicos). São denominadas por muitos cientistas de “controladores silenciosos” de organismos com tendência a explosões populacionais.


As pesquisas de araneofauna de solo no Rio Grande do Sul utilizam armadilhas conhecidas como “pitfall trap” (armadilha de queda), que na verdade são potes enterrados ao nível do solo, um método passivo de captura adotado por estudos ecológicos, levantamento rápidos de biodiversidade para detectar insetos, anfíbios, répteis e até mesmo para controlar pragas em cultivos agrícolas. Estes estudos tem revelado a coexistência de uma diversidade de famílias e morfoespécies adaptadas aos campos. Entre as principais famílias destacam-se: Lycosidae (aranhas-lobo), Salticidae (aranhas-saltadoras), Lyniiphidae, Anyphaenidae, Oonopidae, Ctenidae, Corinnidae, Gnaphosidae, Hahniidae e Theridiidae, entre outras. Durante dois anos (2006-2008) foi realizado um estudo sobre aranhas de solo numa única região denominada de Cerro Verde no município de Sant’Ana do Livramento – RS, localidade do Rincão da Bolsa, onde foram coletadas 10.666 aranhas. Deste total foram identificadas 23 famílias e 108 espécies, na qual entre as espécies, apenas 23 foram identificadas nominalmente. O restante das espécies não era conhecido pela ciência e foi depositado no Laboratório de Coleções Zoológicas do Instituto Butantan em São Paulo.





Entre as espécies de aranhas mais conhecidas que vivem no solo do bioma Pampa estão as Catumiri parvum, Arachosia praesignis, Alpaida veniliae, Asthenoctenus borelli, Camillina claro, Sphecozone bicolor, Lobizon humilis, Glenognatha lacteovittata, Platnickina mneon, Goeldia obscura, Meriola cetiformis e Latrodectus mirabilis. A Catumiri parvum é uma aranha que pertence ao grupo das aranhas caranguejeiras (Mygalomorpha) e teve seu primeiro registro para o município de Sant’Ana do Livramento – RS em 2014. É uma espécie de pequeno porte que foi originalmente descrita por Keyserling em 1878 com o nome de Avicularia parva, sendo reclassificada e transferida para o gênero Catumiri em 2004 pelo pesquisador José Paulo Leite. Outra espécie importante para a aracnologia brasileira e que vive no Pampa é a Glenognatha lacteovittata, que pertence à família Tetragnathidae que é popularmente conhecida como “aranhas de mandíbulas longas” ou “tecelãs de teias orbitais”. Originalmente foi descoberta e descrita pelo aracnólogo brasileiro Cândido Firmino de Mello-Leitão (1944) pertencendo ao gênero Oedothorax e anos depois foi transferida para o gênero Glenognatha. Já a Lobizon humilis é uma espécie de “aranha-lobo” da família Lycosidae que é considerada endêmica da Argentina. Possui uma ampla distribuição geográfica neste país e o nome do gênero Lobizon é uma referência bem-humorada ao “lobizón” (o lobisomem do folclore argentino e sul-americano), já que as aranhas dessa família são popularmente conhecidas como aranhas-lobo.


Basicamente aqui foram relacionadas algumas das famílias e espécies de aranhas de solo que vivem no solo do bioma Pampa e que são conhecidas pela ciência. Mas o conhecimento completo da composição das espécies de aranhas de solo neste bioma está longe de ser alcançado. Estes organismos passam frequentemente desapercebidos embora sejam componentes importantes da biodiversidade do Pampa. As funções que desempenham como predadoras, presas e organismos integrantes das complexas interações ecológicas contribui para a estabilidade das comunidades biológicas, o controle natural de organismos e o funcionamento dos ecossistemas campestres. A conservação desses organismos está diretamente relacionada à manutenção dos campos nativos, da heterogeneidade da vegetação e da integridade do solo. A preservação de áreas com diferentes alturas de vegetação, presença de serapilheira, pedras, afloramentos rochosos, pequenos arbustos e outros micro-habitats favorece a existência de uma comunidade diversificada de aranhas.


Aranhas e outros invertebrados devem ser considerados nas estratégias de manejo e preservação do bioma Pampa, pois a presença e a diversidade de aranhas de solo podem fornecer informações sobre as condições ambientais de uma área ou região. Mudanças bruscas na cobertura vegetal, revolvimento do solo, queimadas excessivas, uso de agrotóxicos não autorizados, pastejo intenso e a conversão de campos nativos para uso alternativo do solo em áreas rurais podem alterar a disponibilidade de abrigo e alimento para esses organismos. Neste sentido, a composição das comunidades de aranhas de solo pode ser utilizada como um dos indicadores da qualidade e do grau de conservação dos ambientes campestres.












